05/12/2010

Sobre Kuhn, Lakatos e Feyerabend. Uma visão parcial de Alan F. Chalmers da Ciência e Paradigma

Por Luiz Bernardo Barreto

Estrutura nos remete à solidez, algo concreto, resistente. Tais como teorias. Essa é a contribuição que prestaremos nessa resenha. Paremos do ponto de vista de Thomas Kuhn, onde a estrutura das revoluções científicas se mostra perceptiva de que os relatos tradicionais da ciência fosse indutivista ou falsificacionista, não suportando uma comparação com o testemunho da história.

A importância dada ao caráter revolucionário do progresso científico é o mote de sua teoria, onde mostra que a revolução se dar pelo abandono de uma estrutura teórica, e incorporação de outra incompatível por essa. Kuhn dar ênfase aos fatores sociológicos. Seu esquema de ciência se revela em: pré-ciência – ciência normal – crise – revolução – nova ciência normal – nova crise.

Suposições teóricas gerais, e leis e técnicas para a sua aplicação adotadas por uma comunidade científica específica gera um paradigma. Kuhn chama de ciência normal aqueles que operam dento de um paradigma. Esses, os cientistas normais, experimentarão dificuldades e encontrarão falsificações aparentes. Se dificuldades dessa origem fugir do controle, um estado de crise se revela. Uma crise é resolvida quando surgi um paradigma novo, até que, o paradigma original é deixado pra traz. A revolução científica se constitui pela mudança descontínua.

Um único paradigma governa o que se faz uma ciência madura, determinando padrões. O que distingue a ciência da não ciência, é a capacidade de sustentar uma tradição de ciência normal, na ótica de Kuhn. O que desqualifica boa parte da sociologia moderna, por exemplo, é não ter um paradigma. Há possibilidades de descrição de alguns componentes que, entre esses, mostraram presentes leis declaradas, e suposições teóricas comparáveis aos tais componentes no núcleo irredutível de um programa de pesquisa lakatosiano (Lakatos).

Maneiras-padrão devem ser inclusas na aplicação das leis fundamentais, juntamente com variedades de tipo de situação. A ciência normal implica tentativas detalhadas de articular um paradigma objetivando melhorar a correspondência entre ele e a natureza. Dessa forma, Kuhn exibe a ciência normal como atividade com propósito de resolver problemas, sendo regido por regras de um paradigma, um modelo. Tal problema estará ou no campo da natureza teórica, quanto experimental. Problemas que resistem a uma solução são vistos como anomalias, e não falsificações de um paradigma.

O que distingue a ciência normal e experiente, da atividade desorganizada da pré-ciência imatura, é a necessidade de desacordo a respeito com o fundamento. Sendo assim, é normal que se tenha inúmeras teorias, o que obriga ao cientista começar de novo, justificando sua própria abordagem científica. Kuhn contribui dizendo que há mais coisas num paradigma do que é possível esclarecer sob regras e orientações muito claras. A abundante necessidade de mostra uma característica precisa e explicita de algum paradigma, na história ou na contemporaneidade da ciência, faz parecer que a caracterização é violada por algum trabalho dentro desse modelo, dentro do paradigma.

Resolvendo problemas-padrão, agindo em experiências-padrão, e produzindo pesquisa sob orientação de um supervisor, um expert, os cientistas individuais adquirem conhecimento de um modelo por meio de sua educação científica. Esse supervisor é geralmente um praticante treinado dentro do paradigma, e os cientistas individuais são os aspirantes, procurando conhecer os métodos, as técnicas e os padrões daquele paradigma. É o exemplo do professor-doutor, que orienta o aluno-doutorando.

Por causa da maneira como ele é treinado, um cientista normal típico não estará ao todo consciente da natureza precisa do paradigma em que trabalha, não sendo capaz de articulá-la. Dessa forma é necessário detalhar as leis gerais, os princípios metodológicos envolvidos num modelo, para daí defendê-lo contra as alternativas envolvidas no novo paradigma que ameaça.

O paradigma lhe apresenta um conjunto de problemas, definidos justamente com os métodos que acredita serem adequados para resolver seu problema. Fracassos são naturais, e podem atingir um grau de seriedade constituinte de uma crise séria para o paradigma, podendo conduzir à negação de um modelo, sendo sua substituição por uma alternativa incompatível. Kuhn reconhece que os paradigmas sempre encontrarão dificuldades, anomalias. Essas serão consideradas particularmente sérias, se focar em atacar os próprios fundamentos de um paradigma, resistindo às tentativas dos membros de uma comunidade científica normal de tirá-lo de circulação.

Para Kuhn, tanto a competência de um psicólogo, quanto à de um historiador, são capazes de explicar as características de um período de crise na ciência. Quando as anomalias passam a apresentar problemas sérios para um paradigma, um período de grande insegurança profissional aparece. Surgem tentativas para resolução desses problemas, acentuando a radicalidade. Surgem as regras colocadas pelo paradigma para solucionar os problemas, acentuando o descompromisso. Uma vez um paradigma fraco e esfacelado, seus proponentes perdem a confiança nele. É onde entra e revolução. A seriedade de uma crise ganha terreno quando surgi um modelo rival.

Cada paradigma verá o mundo como uma composição de diferentes coisas. Kuhn vem dizer que os tipos de fatores que se mostram eficientes em fazer com que os cientistas mudem de modelo, é uma questão a ser descoberta com investigação, psicológica e sociológica. Ele traz uma concepção de que não há um universo único pelo qual o cientista deva julgar o mérito ou a promessa de um paradigma, e os produtores de programas competitivos aderirão a diferentes conjuntos de padrões, fazendo enxergar o mundo de formas diferentes, descrevendo-o em linguagem também diferente.

Uma revolução científica corresponde ao abandono de um paradigma e adoção de um novo pela comunidade científica relevante como um todo. O relato de Kuhn sobre a natureza da ciência é puramente descritivo, objetivando descrever as teorias científicas ou paradigmas, e a atividade dos cientistas. É errado afirmar que Kuhn caracteriza sua ciência originada apenas de uma descrição do trabalho dos cientistas. Ela constitui uma teoria da ciência no que inclui uma explicação da função de seus vários componentes. A ciência normal e as revoluções servem elementos necessários para desempenhar as mesmas funções. Trabalhando no interior de um paradigma, se é capaz de executar trabalhos teóricos e experimentais com rigor, necessários para levar a correspondência entre o paradigma e a natureza a um grau cada vez mais alto. É necessário que a ciência normal seja amplamente não-criticada.

Se há uma permanência de todos os cientistas serem cientistas normais, então a ciência específica ficaria amarrada em um único paradigma, não progredindo para além dele. Uma rede conceitual específica, por meio do qual o ambiente é visto e no qual descrito, com um conjunto específico de técnicas experimentais e teóricas para fazer corresponder o paradigma à natureza. Assim se mostra um paradigma válido. Não há motivo para esperar que um paradigma seja perfeito, pois não existem procedimentos indutivos para se chegar a paradigmas perfeitamente adequados. Dessa forma, a ciência deve conter um meio, em seu interior, de romper de um paradigma para um modelo melhor, se fazendo assim a função das revoluções.

Os paradigmas possuem uma influência tão comovedora sobre a ciência praticada no interior deles, é que a substituição de um modelo por outro tem que ser na base da revolução. Nem todos os cientistas chegaram à mesma conclusão ou adotarão a mesma estratégia. A vantagem que há nisso é de que o número de estratégias tentadas são multiplicados.

Um indutivista pode aceitar como critério universal, o grau de corroboração indutiva que uma teoria recebe dos fatos aceitos, ao passo que um falsificacionista pode estruturar seu critério no grau de falsificabilidade de teorias não falsificadas. Uma característica importante do racionalista é a sua universalidade e seu caráter não-histórico. O racionalista extremo vê as decisões e as escolhas dos cientistas sendo dirigidas pelo critério universal. O cientista racional rejeitará as teorias que deixem de corresponder a ele, no que escolhe entre duas teorias rivais, escolherá aquela que melhor corresponda a ele. O racionalista típico acreditará que as teorias que se conformam às exigências do critério universal são verdadeiras, ou possivelmente verdadeiras.

Assim um racionalista indutivista poderá decidir que a astrologia não é uma ciência, por não ser derivada indutivamente dos fatos da observação, enquanto um falsificacionista poderá decidir que o marxismo não é científico por não ser falsificável. Na verdade, a racionalidade e a ciência são vistas como intrinsecamente boas.

Deixemos o racionalismo e falemos do relativismo. Essa nega que possa se julgar que uma teoria é melhor que outra. Varia de individuo para individuo, de comunidade para comunidade o conceito de que é melhor ou pior sobre as relações científicas. O objetivo da busca do conhecimento dependerá do que é importante, ou daquilo que é valorizado pelo individuo ou a comunidade questão. As caracterizações de progresso e as especificações de critério para julgar os méritos das teorias, serão sempre relativas aos indivíduos, ou as comunidades que aderem a elas. Não há um critério universal que dite uma decisão logicamente convincente para o cientista “racional”.

O extremo relativista pensa que a relação entre ciência e não-ciência torna-se muito mais arbitrária e menos importante do que é para o racionalista. Um relativista negará a existência e uma categoria única, a ciência, que é intrinsecamente superior a outras formas de conhecimento, embora muito possivelmente aconteça que indivíduos ou comunidades dêem alto valor àquilo que geralmente se conhece como ciência. Se a ciência é altamente respeitada em nossa sociedade, isso deve então ser compreendido analisando-se a nossa sociedade, e analisando a natureza da ciência.

Lakatos declarou explicitamente que o problema central da filosofia da ciência, é o problema de explicar condições universais sob as quais uma teoria seja científica, um problema que é ligado intimamente ao problema da racionalidade da ciência, cuja solução “deveria oferecer orientação quanto a quanto é ou não racional a aceitação de uma teoria científica”. O progresso científico conceitua um efeito de adesão aos vitoriosos, pois na ausência de critérios racionais que guiem a escolha teórica, sua mudança aproxima-se da conversão religiosa.

O critério universal de Lakatos segue-se de seu princípio de que “ a metodologia dos programas de pesquisa científica é mais adequada para a aproximação da verdade”. Lakatos considerava uma conjectura testável, oferecendo um critério universal de racionalidade conjectural, que deve ser testado na história da ciência. Kuhn menciona critério de precisão de previsão, especialmente da previsão quantitativa; o equilíbrio entre os assuntos esotéricos e os cotidianos; o número de problemas diferentes resolvidos. Simplicidade, foco objetivo, e compatibilidade com outras especialidades.

Se uma teoria é ou não melhor que outra é um assunto a ser julgado em relação aos padrões da comunidade apropriada, e os padrões terão variações, tipicamente, com o cenário histórico e cultural da comunidade. Ai o conhecimento científico é tido como linguagem.

Feyerabend defende que nenhuma das metodologias da ciência até agora propostas são bem sucedidas, argumentando que as metodologias da ciência fracassaram em fornecer regras adequadas para orientar as atividades dos cientistas. Se metodologia das ciências for compreendida como termos de regras, como orientação das escolhas e das decisões dos cientistas, então parece que a posição de Feyerabend é correta. Ele atinge as metodologias, interpretadas como fornecedoras de regras para a orientação do cientista. O cientista na deve ser restringidos pelas regras da metodologia.

Ou seja, se você quer fazer uma contribuição para uma ciência, não é preciso que você esteja por dentro das metodologias da ciência contemporânea. Feyerabend argumenta não ser aconselhável que as escolhas e decisões dos cientistas sejam restringidas por regras estabelecidas ou implícitas nas metodologias da ciência.

Um componente importante da análise da ciência de Feyerabend é seu ponto de vista sobre a incomensurabilidade, que tem algo em comum com o ponto de vista de Kuhn. Esse conceito origina-se na dependência da observação com a teoria. Os princípios fundamentais de duas teorias rivais podem ser tão radicalmente diferentes que não é, nem menos possível, formular os conceitos básicos de uma teoria nos tempos da outra. Ele defende a atitude humanitária, sendo a “inconstitucionalização da ciência, em nossa sociedade, inconsciente com a atitude humanitária”. A escola de Feyerabend é o anarquismo.

Para Alan F. Chalmers, Feyerabend, dissertando sobre a liberdade do individuo, deixa de dar uma atenção adequada às coerções que operam na sociedade. Nessa concepção, ciência e literatura, por exemplo, contribuem da mesma forma.

03/12/2010

Como funciona o Sistema de Ação Cultural brasileiro, segundo Betânia Tanure de Barros

Por Luiz Bernardo Barreto

A análise de Tanure apresenta uma hipótese verdadeira básica, estabelecida pelo caráter cultural atuante. As organizações brasileiras são caracterizadas por ações administrativas formuladas por um contorno cultural que as influenciam. O que define a cultura da organização são esses contornos, que se combinam entre si. A análise de Betânia Tanure de Barros, sobre as organizações que fundam o sistema de ação cultural brasileiro, se formula nos aspectos culturais nacionais sem reivindicá-los.

Tanure pontua que a partir da Revolução de 30, pode-se melhor entender o desenvolvimento das relações capitalistas de forma acelerada, com grande influência cultural americana. Ocorre, nessa concepção, o surgimento que a autora chama de árbitro do julgamento, exemplificando as atitudes artísticas já não mais feitas por pessoas do próprio setor, passando a serem feitas pelo mercado, ou seja, pelo consumidor, surgindo os juízes de seu valor.

A burocracia se “profissionaliza” no surgimento dos colarinhos brancos, indicando as mudanças na escala dos valores. A sociedade brasileira passa, então, de uma sociedade rural sob influência da Europa, para influência americana. Tal sistema cultural brasileiro, em analogia feita por Tanure, é um tecido que tem fios interligando, transmitindo e recebendo impactos e reflexos entre si, onde se constituem mais como uma rede auto-sustentada em suas articulações, do que um sistema linear que tem uma única origem e fim. Eles, os fios, são caracterizados pelas relações dos traços culturais. Os traços culturais seriam os nós, naturais, desse tecido.

Segundo a autora, o sistema de ação cultural brasileiro se estrutura em quatro grandes subsistemas: o institucional, o pessoal, o dos líderes e o dos liderados. O institucional seria os traços culturais no espaço da “rua”. O pessoal compõe o espaço da “casa”. O subsistema dos líderes faz um corte, reunindo traços encontrados nos que detêm o poder, e o subsistema dos liderados concentra os aspectos culturais próximos dos subordinados ao poder. Isso é uma visão dinâmica e relativa. Ora somos líderes, ora somos liderados. Ora atuamos impessoalmente, ora pessoalmente.

Essa relação é denominada pela autora por “englobamento”, no que o conjunto de traços culturais se sobrepõe, formando um único conjunto e fabricando subconjuntos. Dessa forma, tanto o indivíduo pode influenciar a pessoa (profissionalização da empresa familiar – EX; contratação por indicação), como a pessoa pode influenciar o indivíduo (relações de pessoas que se sobrepõem a critérios formais e regulamentados – EX; aprovação em concurso público). Seria a familiarização ou tribalização.

Isso estrutura uma idéia de que, se todos são líderes, ocorre um processo de horizontalização, num estado avançado de igualdade, e quando são todos liderados, verticalização, num estado de grande distância do poder. O sistema de ação cultural brasileiro é definido pelo processo de funcionamento da estrutura cultural. O que garante a ação da estrutura cultural é sua operacionalização, que se dá por estratégias construídas pelo conjunto social, e subordinadas a elas, quando num curto prazo.

Nesse subsistema há quatro interseções, caracterizadas pela concentração do poder, personalismo, postura de espectador e pelo evitar conflitos. Os traços culturais especiais articulam esses subsistemas, sendo responsáveis pela não ruptura do sistema totalmente. Entende-se como esses traços o paternalismo, a lealdade às pessoas, o formalismo e a flexibilização. O paternalismo e a flexibilização fazem a junção dos subsistemas institucional e pessoal. A aproximação dos líderes e liderados é constituída pela aproximação dos traços de lealdade às pessoas e o formalismo. Ainda há a impunidade como traço central, que alimenta o subsistema dos líderes, liderados, institucional e pessoal. A combinação de todos os traços constitui e rege o sistema de ação cultural brasileiro.

O paternalismo nasce da combinação da concentração do poder e do personalismo, o que gera vários desdobramentos da nossa cultura. A conceituação de poder usada por Tanure vem de Weber, numa concepção de autoridade legítima, encontrada em todos agregados sociais. A legitimidade coloca em aceitação as bases nas quais a autoridade se estabelece, podendo ser a tradição, os princípios racional-legais ou o carisma. Exemplificando, podemos citar o direito do filho primogênito de ocupar o cargo como uma base tradicional. Já a autoridade formulada em princípios racional-legais, se estrutura quando a pessoa tem o direito de votar no seu representante governamental. O carisma é a base que dá “legitimidade” ao personalismo, fazendo do discurso uma ferramenta de absorção com poder de ligações.

O movimento de formação social brasileiro, no que diz respeito à ação cultural, se constitui na junção das estruturas de poder (autocracia, poliarquia limitada e poliarquia plena), com as principais bases de autoridade. Isso resulta numa “confusão” no que diz respeito ao entendimento do que é classe média e classe operária sem hábito de organização. Essa última marginalizada a uma constante pobreza. O início da década de 90 não amplia a poliarquia brasileira, mas reconhece o poder político aos trabalhadores sindicalizados. A tendência urbanizante trouxe, da zona rural e de regiões menos desenvolvidas, grandes massas com baixo grau de escolaridade e organização.

A sociedade brasileira criou uma concentração do poder baseada na hierarquia e subordinação, estabelecendo a manutenção da autoridade, se valendo da força tradicional do militarismo e do poder racional-legal. É a “política” do “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Isso leva a crer que, no Brasil, a própria palavra cidadão se funda numa nomenclatura negativa, servindo para posicionar alguém que está na desvantagem, em inferioridade, sendo uma cultura que desabilita o cidadão como o núcleo de poder.

Por vezes esse poder se concentra em líderes (no caso do Brasil) que causa uma dependência do cidadão com o governo. Ser forte, centralizador e ter um rosto personalizado ainda é o padrão de líder mais votado no país. O ator do processo se pauta na troca objetiva de trabalho por remuneração, com aspectos afetivos, trocando na verdade a dedicação e colaboração não atritosa, não crítica, não reflexiva, pelos laços de intimidade pessoal. Isso resulta numa dependência continuada de liderados pelos líderes.

O apego excessivo as formalidades é umas das maneiras significativas e relevantes de como nossa cultura visa fugir às incertezas do futuro. O diálogo é substituído pelo ato de comunicar. O formalismo se mostra onde se intencionam regular as relações entre líderes e liderados, objetivando criar mecanismos de uma eventual estabilidade. Nossa dependência se orienta por autoridade externa, sendo essa dominadora, limitando nossa consciência crítica. Comumente, o Brasil adota um padrão americanizado em suas vias urbanas.

Também há o processo de infantilização, emergindo numa falta de vontade própria do individuo. Então se transfere a responsabilidade, pois se o individuo não se “senti” enquadrado no resultado que esse poder pode desfrutar, ele o delega para a hierarquia que pode detê-lo, gozá-lo. Isso torna nossa capacidade de realização por autodeterminação reduzida em extremo. Seria a cultura do “estar fazendo” pequenas reformas sem avanços significativos. Seria o fatalismo e passividade na socialização brasileira.

A saída, nesse sentido, é a esperança em tempos melhores e confiança em um Deus, que oferece uma riqueza natural que deixa o indivíduo mais seguro. Mas na vida real, o que acontece é uma aceitação silenciosa das normas e regras, com um grande abismo entre a conduta concreta e as normas prescritas. Utilizam-se processos e canais extralegais, tidos como normas e regulares pela consciência de um todo coletivo. Há uma ética de permissão para uma separação social, por vezes imposto por leis e regulamentos idealistas (subjetivos) e protecionistas (favorecimento interno).

Dessa forma, há um buraco enorme entre o direito e o fato que caracteriza e justifica o formalismo, sendo esse mais o que parece uma estratégia relativa a ambos, arraigada na formação brasileira, e bem particular. Isso gera nepotismo, favorecimentos e suborno, caracterizando instabilidade e insegurança. Inúmeras normas surgem com a legislação, que se mescla entre a especificidade e abrangência da causa. Isso vem trazer uma estabilidade nas relações sociais apenas aparente.

Num exemplo, citemos nossas várias reformas monetárias, que se dar por um ciclo formalístico, podendo decorrer de duas vertentes, o da paralisia total do sistema e o da desmoralização completa, sendo esse último, citado por Tanure, o fenômeno encorpado no Brasil, uma vez que há uma busca incansável por novos estágios de construção nacional com as reformas legislativas, por exemplo. Há uma rigidez maior se a lei tiver que ser aplicada para aquela pessoa que se encontra fora das relações, e uma flexibilidade maior na interpretação dessas mesmas leis para as pessoas de nossa relação, ou com autoridade. Ou seja, enquanto as normas no Brasil são bastante específicas, nosso ajustamento se faz por uma interminável interpretação do processo, cujo resultado depende da hierarquia de quem se encontra do lado a ser julgado.

A impunidade se mostra aos líderes, fortalecendo sua posição de poder, aumentando no âmbito da instituição o grau de consistência nos traços culturais brasileiros (o senador que é caçado, mas não punido – o deputado que renuncia e depois se elege – o empresário que é condenado e não é preso, etc). Ai, a lei é indiferente, e os direitos individuais, monopólio de poucos. Isso faz surgir uma apatia, sendo o brasileiro cada vez mais espectador. Nesse contexto, a sociedade transforma em heróis aqueles que transgridem a lei, como traficantes, bicheiros, ou simplesmente aquele cara que religa a água ou luz, cortada de uma comunidade por falta de pagamento. Os heróis de relevância que produzimos, vem do esporte, por exemplo, e nunca do segmento político.

Betânia Tanure de Barros vem conceituar que, nesse sentido, a sociedade caminha com características tribais, por não “eleger” uma referência maior pactuada fortemente entre os grupos da sociedade, tendendo a desagregação social, enquanto sociedade institucionalmente constituída.

Os seres humanos que trabalham na organização, o subsistema pessoal, se pautam por um estado de segurança e harmonia, lealdade pessoal e negação dos conflitos, sendo esse subsistema contextualizado no personalismo. A lealdade pessoal (no âmbito do subsistema pessoal) é a contrapartida ao formalismo (do subsistema institucional). Seu objetivo é organizar, articular, os subsistemas dos líderes e liderados, pelo espaço que rodeia as pessoas.

O mecanismo de interligação entre os vários grupos de uma sociedade está centrado na pessoa, essencialmente nos líderes. A confiança é depositada no líder que passa a ser o elo da rede que compõe os segmentos. Vê-se o aspecto da “casa” (na concepção de Roberto DaMatta) como modelo de identificação familiar, extensivo e intensivo. A lealdade às pessoas tem um preço que é a segurança ou pressão dos membros do grupo. As redes de relacionamento pessoal no Brasil fortalecem o formalismo, que, conseqüentemente, reforça a lealdade pessoal. Essa é uma condição para o sistema fluir.

Tanure vem dizer que, parece que a sociedade brasileira optou por um modelo de envolvimento mais coercivo-alienativo, onde a lealdade é a pessoa do líder, e esse faz da sedução afetiva sua arma de comprometimento e coesão social. No caso de conflitos, se usa das triangulações, com a figura do mediador de conflitos.

É natural na concepção da ação cultural brasileira não buscar um objetivo claro e progressivo, sem ação concorrencial, não tendo estímulo, sem agressividade para a realização. O processo se faz mais importante do que a realização. A competição é feita de forma cooperativa, com ajuda da intermediação governamental. Essa é a forma que o Brasil adotou para realizar seus projetos nacionais, não formulando uma competitividade aberta estimulante. A competitividade nessa instância está do lado de dentro, tratando de evitar conflitos de forma declarada.

O que dá a articulação ao sistema institucional e pessoal ainda é o subsistema dos liderados, sendo esse um dos mais importantes da ação cultural brasileira. É o traço da flexibilidade (adaptabilidade). Essa é a nova versão do “jeitinho”, nascida do formalismo com uma característica de “criatividade” e “pragmatismo”. Esse “jeitinho” é o marco central do nosso sistema de ação cultural.

Em toda essa contextualização, o Brasil se mostra um país harmônico, alegre, pobre economicamente no que diz respeito à maioria dos cidadãos comuns, e com senso de espectador que não deixa fluir uma maior absorção crítica dos fatos. Isso serve de admiração para as instituições estrangeiras, porque é nessas características que o jeitinho de inicia. Seria uma admiração da ligação do forte com o fraco, do líder com o liderado, do poder concentrado com a inexistência do poder, do divino com o profano (muito presente nas religiões) e daí por diante. Porém, desenvolvemos a capacidade de convivermos com os opostos (sem citar os casos aparentes de xenofobia entre regiões e credos, diga-se de passagem, a pouco tempo ocorridos, de forma fluente por redes sociais virtuais), sendo essa a base do nosso estilo de administrar.

25/11/2010

A crítica e consideração de Émile Durkheim sobre Rudolf Jhering

Por Luiz Bernardo Barreto


Para o sociólogo Émile Durkheim, a moral se relaciona com todos os fatos sociais dos quais deriva e formam seu conteúdo. Em sua concepção, a filosofia do direito nunca se limitou aos filósofos na Alemanha, pois os juristas já há bastante tempo vêm tratando do direito natural, e desde o início atribuíram a ele uma forma mais positiva: O direito ideal e o real; O direito ideal seria a conseqüência do destino da humanidade, com capacidade de superar os limites normais. O direito real seria a estância das necessidades da vida prática, sendo o poder direto e imediato. Para o autor, a interação dos dois não foi muito produtiva.

Em seu estudo sobre o trâmite da jurisprudência, Durkheim cita o escritor e jurista Rudolf von Jhering (autor de A finalidade do Direito, 1884), que trata de um novo conceito da filosofia do direito. Tal estudo se encontra no segundo capítulo de sua obra: Ética e sociologia da moral. No trabalho citado, o jurista trata à ética, segundo Durkheim, em seu conceito “pontual” de finalidade. A finalidade citada por Durkheim nasce de uma interação de outros campos de estudo, pesquisa e ciência na formação de uma ética doravante, e não pontual: “Nosso conceito faz dela um ramo da ciência social e irmã gêmea de todas as disciplinas (...) jurisprudência, estatística, economia política e política (...) eu próprio estou pronto a usar outras para os objetivos que tenho em mente” (Émile Durkheim). Ele também trata a ciência da linguagem como ferramenta útil na análise das ciências morais.

Durkheim critica Jhering por suas idéias serem superficiais, sem profundidade e precisão, numa pregação de um direito mais individual que coletivo. Essa prática do direito natural reduziria a realidade a um conjunto de conceitos, se estruturando numa idéia abstrata, ou seja, sem maior entendimento para o grosso da população. Dessa forma, Durkheim vem registrar que Rudolf von Jhering reconhece apenas o método subjetivo na psicologia.

Segundo Émile Durkheim, as primeiras idéias morais do povo são formuladas pela relação da mitologia e etimologia, formando essas o que o autor chama de paleontologia da ética. Essa concepção traz à tona a idéia de que as pessoas, com a abstração do pensar, não mudam sua forma, e sim sua capacidade de reflexão. Tal forma de pensar presumi o agir, que esse, por sua vez, se pauta em regras. O autor vem dizer que para explicar uma regra do direito, é preciso mostrar que ela é útil para alguma coisa, que se ajusta ao propósito a que deveria atender. “O direito é um fenômeno sociológico. Para entendê-lo é preciso buscar sua finalidade” (Émile Durkheim).

Nesse “patamar” de pensamento, o autor vem dizer que “ocorrem nas sociedades, assim como nos indivíduos, mutações que têm causas, mas não têm fins (...) a noção de que todas as nossas ações visam objetivos conscientes ou não é altamente discutível”. A primeira afirmativa ressalva que os fenômenos sociais derivam de causas práticas, com possibilidade de variações úteis, mesmo sem previsão e sem causa determinante, sem finalidade precisa. A segunda afirmação visualiza, de forma geral, que todo ato de comportamento humano, de natureza individual ou social, objetiva a adaptação do indivíduo, ou da sociedade, ao ambiente.

Para a adaptação do indivíduo, as condições são fundamentais. Em Durkheim é necessário dar ao termo “condições” um significado mais abrangente. Nesse sentido, ele vem dizer que condições não são apenas as coisas indispensáveis à sobrevivência, e sim tudo aquilo cuja falta faria a existência, que parece sem valor. Ele exemplifica sua afirmativa com a necessidade da honra, na qual não é uma condição necessária à vida, porém abstraída pela sociedade como um valor moral. Contextualizando, ele vem dizer que o direito depende simultaneamente de causas objetivas e de causas subjetivas, não tendo esse que ser “julgado” num nível de veracidade ou falsidade, mas sim num patamar de adequação ou inadequação ao objetivo que é sua razão de ser. Entende-se por Durkheim que o direito não é essencial, e sim fundamental.

“Quando a sociedade padece de males, ela se protege e os combate por meio do direito” (Durkheim). Então, para se entender o caráter jurídico, é preciso considerar sua relação com os fins que eles realizam, e não as coisas em si, porque os males podem ter diversas facetas, sendo para uns benefícios. Entendendo a relação com os fins, entenderíamos a melhor aplicação do caráter jurídico pela via do direito. “O direito é a mão pesada da sociedade sobre o indivíduo, e onde ela deixa de se fazer sentir, não existem direitos” (Durkheim). Para ele não existe apenas um único direito, sendo a sociedade que assegura todos os direitos que se possui, tendo o poder de limitá-lo e restringi-lo.

Émile Durkheim também chama atenção a um fenômeno muito presente na contemporaneidade, que é o crescimento da interferência do direito na esfera do interesse público. Isso moldura, cada vez mais, os códigos civis, de uma forma ou de outra. Tais códigos se expandem na medida em que as sociedades crescem e se tornam mais enredadas, emaranhadas, com condições de existência mais diversificada e complexa. Para dar exemplo claro, o autor cita serviços que antes eram luxo, e hoje são fundamentais (já não mais apenas essenciais), como o militarismo e a educação elementar.

A liberdade antes desfrutada pelo indivíduo agora se torna obrigação social, na qual o progresso distinguiu cada vez mais o mundo social e físico que o cerca, desenvolvendo um sentido mais forte de si. “A ação do Estado se expande cada vez mais e não é possível atribuir a ela um limite definitivo” (Durkheim). Essa é a concepção na qual Durkheim vem criticar e discordar na idéia de direito natural, emitida por Rudolf von Jhering, na qual a única função é proteger os indivíduos uns dos outros. Émile Durkheim vem assegurar que “os teóricos do direito natural esquecem de que a compreensão não pode ser reduzida a uma massa de cidadãos, nem o interesse social reduzido à soma dos interesses individuais”.

Dessa forma, ele vem dizer que não é um abismo a característica centralizadora na qual os indivíduos usam para se isolar. Muito pelo contrário, eles se amontoam uns sobre os outros, sempre se tocando no que se mexem. Porém, Durkheim concorda com Jhering quando afirma ser a coação a finalidade do direito. Mas ele ressalva que existe coação de diferentes tipos, sendo: 1. A que o indivíduo exerce sobre o outro; 2. As que se exercem em difusão pela conjuntura social sob os usos e costumes, e da opinião pública; 3. As estabelecidas e concentradas na mão do Estado (assegurando a eficácia do direito).

Durkheim conclui que onde não há coação, o direito é inexistente, e onde a coação não é bem estabelecida, não há consistência no direito. “É por isso que o direito internacional continua num estado de incoerência e confusão do qual não sairá tão cedo” (Durkheim). Coação se fundamenta na força, e, para o autor, é da força que surge o direito. No principio a força era essencial e o direito secundário. Hoje o princípio e outro. Ele se inverte, tendo a relação entre força e direito mudado. A força é auxiliar, servindo ao direito.

O autor dita o direito como algo que não é sagrado em si, sendo sim um meio de se chegar a um fim, apenas tendo valor se garantir a vida da sociedade. Contrariando essa regra, “será natural que a força intervenha e reassuma temporariamente o lugar que já ocupou”. Na concordância com Jhering, o direito é “todas as condições de existência da sociedade asseguradas por meio de uma coação externa imposta pela força colocada à disposição do Estado” (Rudolf Jhering, Der Zweck im Recht, Leipzig, 1884, vol. 1, p. 511). Jhering busca o motivo que levam as pessoas a respeitá-lo. Então, para que a sociedade seja possível, é necessário que nos desprenda de certos fatores, como a liberdade em alguns casos, por exemplo, pois o livre arbítrio assegurado pelo Estado pode ser uma concepção de liberdade não desfrutada e adquirida por determinado indivíduo. Exemplifiquemos: matar em alegação a defesa pessoal. Quem interpreta se foi defesa ou não é o Estado.

O direito se permanece com dois princípios da moral pura, que é o senso de dever e o amor. Sem tais princípios, pertencentes ao domínio dessa moral, o direito não se permaneceria. A moral, assim como o direito, consiste de preceitos que a coação torna obrigatório quando achar necessário. É necessário que haja uma flexibilização e liberdade da moral diante do direito. Mas o direito se diferencia da moral por características externar e diferenças de vem de dentro pra fora, sendo que na obra de Rudolf Jhering não se possa ver a claridade da consistência dessa diferença.

O direito, para Durkheim, é a moral mínima absolutamente necessária para o permanecimento da sociedade. Jhering aborda diferentes graus de moralidade, sendo os costumes e a moral propriamente dita. Aos costumes, ele enfatiza que tem que ser distinguido da moda, pois a essa se atribui razões individuais, inteiramente. Durkheim discorda, uma vez que, para o sociólogo, o motivo da moda é eterno, sendo sua verdadeira causa social, resultando da necessidade manifestada pelas classes superiores, na tentativa de se distinguirem externamente das inferiores. Dessa forma, as camadas inferiores tendem imitar as superiores, e os estilos se difundem pela sociedade, quando a moda é adotada por todos, perde o valor, tendo que se renovar indefinidamente para continuar sua jornada. Particularmente, e me permitindo fugir do contexto que é uma resenha científica, como aqui se intenciona fazer, exponho minha opinião discordando dessa afirmativa de Émile Durkheim, levando em consideração que na contemporaneidade o que se presencia, em alguns casos, é o inverso disso, em que a classe mais baixa, economicamente falando, dita sua própria moda, e, por vezes, constrói um modelo identitário no qual a camada mais superior, numa situação financeira, consome assiduamente. Roupas e músicas da moda (atual) são exemplos claros disso. Obviamente que esse modelo ainda se constrói em ressalvas, não sendo o modelo gerador e dominante.

Voltando ao assunto proposto, para Durkheim a moda é externa à moral (sua origem é a vaidade de classe). Porém, a moda não se dá com os costumes, que são apoios úteis indispensáveis. Dessa forma, pode-se agir contra os costumes sem ofender a moral. Os costumes então, se mostram medidas preventivas com propósito de evitar o mal, não de combatê-lo. O que o costume proíbe não é em si condenável, e sim perigoso. “O valor moral dos costumes é real, mas derivado; e, no caso de conflito com a moral, são os costumes que devem ceder” (Durkheim).

Finalizando seu artigo: Os juristas - Rudolf Jhering, sendo o capítulo II de seu livro: Ética e sociologia da moral, o autor julga a psicologia de Jhering muito simplista, atribuído ao cálculo e aos sentimentos interessados um papel excessivamente importante na formação das idéias morais e ignorando o início da evolução humana. Dessa forma, Rudolf von Jhering atribui uma importância exagerada à forma externa das coisas. Mas esse jurista, segundo Durkheim, “merece crédito por ter descoberto e indicado o caminho pelo qual a moral pode vir a se tornar uma ciência positiva”, sendo seu livro um “esforço para reunir a filosofia do direito e o direito positivo”.

23/11/2010

Resumo | Leitura do Cap. 06 - A Ética do Trabalho, do livro A Corrosão do Caráter, de Richard Sennett

O trabalho que se segue teve seu contexto da pesquisa produzido por Juliana Gomes de Moraes e Tayga Pimentel | As considerações finais é de Luiz Bernardo Barreto.

Tal pesquisa faz parte do trabalho apresentado na cadeira de Sociologia das Organizações | Ciências Sociais | UFRPE


As superficialidades da sociedade moderna são as mais degradadoras do comportamento humano. Um dos motivos para essa superficialidade degradante é a desorganização do tempo, originado pelo trabalho moderno, uma vez que a trajetória da atual economia política é continuamente replanejada. Detesta a rotina e o curto prazo. Tentando descobrir a profundidade do tempo abaixo da superfície, as relações humanas são desprovidas de objetivos duráveis. A ética do trabalho é a arena em que mais se contesta hoje em dia, essa profundidade. Ética de trabalho, como é vista hoje, depende de instituições suficientemente estáveis para a pessoa praticar a experiência da profundidade - experiência esta que é entendida como um adiantamento na vida dos trabalhadores.


Num regime cujas instituições mudam rapidamente, a satisfação pelo trabalho adiado, por exemplo, perde seu valor. A seriedade da velha ética de trabalho como foi vista por estudiosos, impunha pesados fardos ao eu trabalhador. As pessoas tentavam provar seu próprio valor pelo seu trabalho em forma de "ascetismo leigo", como o chamou Max Weber. O adiamento da satisfação podia tornar-se uma prática profundamente autodestrutiva. Mas a alternativa moderna para a longa disciplina de tempo, não é um verdadeiro remédio para essa autonegação. A moderna ética do trabalho concentra-se no trabalho de equipe, pois acima de tudo, o trabalho em equipe enfatiza a adaptabilidade às circunstâncias. Neste sentido, o trabalho de equipe é a ética de trabalho que serve a uma economia política flexível. Apesar de todo o arquejar psicológico da administração moderna sobre o trabalho de equipe, no escritório e na fábrica, é o etos de trabalho que permanece na superfície da experiência. Então, trabalho de equipe é a prática de grupo da superficialidade degradante.

A velha ética do trabalho baseava-se na prática voluntária, auto-imposta, que na simples submissão passiva a horários ou rotinas. No mundo antigo, achava-se que essa disciplina auto-imposta era a única maneira de enfrentar o caos da natureza. Era uma necessidade exigida diariamente, dos agricultores, já que os mesmos dependiam da incerteza da natureza, de seu tempo imprevisível (Cf. Hesíodo, Os trabalhos e os dias). No mundo de Hesíodo, porém, a disciplina auto-imposta no uso do tempo parecia mais necessidade bruta que virtude humana. Com o correr do tempo, a estatura moral do agricultor se elevava. A necessidade de trabalhar duro torna-se então, uma virtude. Virgílio em Geórgicas, quase quinhentos anos depois de Hesíodo, ainda evoca a anarquia da natureza. Segundo ele, a virtude moral da agricultura é que ensina resolução permanente, independente de resultado. Em Geórgicas, transpõem-se a anarquia da natureza para uma visão de anarquia interior, psíquica. A única defesa do indivíduo aqui é organizar bem o seu tempo.

Quando a idéia de autodisciplina tomou forma, continha uma forte dose de estoicismo - não do tipo filosófico, mas uma espécie de estoicismo prático, que ditava a necessidade permanente de combater a anarquia interior, sem esperança de vitória. O estoicismo permanente do camponês não bastaria para o homem histórico. Os termos de disciplina teriam de adaptar-se a um eu em fluxo. Junto a esta corrente, o filósofo renascentista Florentino Pico della Mirandola, em sua Oração sobre a dignidade do homem afirma o homem como seu próprio criador (homo faber), onde sua condição é maleável. Em vez de manter o mundo como o homem o herdou, deve-se moldá-lo de novo. Mas, apesar de o homo faber ir contra o dogma tradicional cristão, Pico della Mirandola não era surdo a essas convicções. Ele acreditava que a conduta cristã exige autodisciplina e imitação de vidas exemplares. O cristão em Pico está certo do destino final, mas também quer fazer-se ao mar. É um dos primeiros filósofos renascentistas a celebrar os riscos psíquicos, sabendo que o mar interior, como os oceanos navegados pelos exploradores renascentistas, é território não mapeado.

Essas meadas éticas contrárias, a autodisciplina e automodelação, vinham juntas no mais famoso ensaio sobre a ética do trabalho, A ética protestante e o espírito do capitalismo, de Max Weber. O autor procurou mostrar mais a combinação que a contradição delas, ao analisar a alvorada do capitalismo moderno. Segundo ele, o que se deve adiar é o desejo de satisfação e realização. Molda-se a história de modo que no fim se tenha conseguido alguma coisa com o trabalho. Então, e só então, nesse tempo futuro, estar-se-á realizado. Quanto ao presente, deve-se ainda agir como o camponês de Virgílio, combatendo a preguiça e as forças do caos interior, com uma distribuição rígida e implacável do tempo. Portanto, neste contexto, julgava Weber a ética de trabalho como uma fraude. O adiamento é interminável, a autonegação no presente inexorável. Para ele as recompensas prometidas jamais chegam. A visão do tempo de trabalho serve a Weber como uma maneira de criticar as crenças modernas sobre o caráter, especificamente a crença no homem como seu próprio criador. Essa autonegação tornou-se então o "ascetismo leigo" da prática capitalista do século dezoito, com sua ênfase mais em poupar que em gastar, sua "rotinização" da atividade do dia-a-dia, seu medo do prazer. O catolicismo, antes do advento do protestantismo, buscara tranqüilizar a maculada humanidade, embora aconselhando a rendição às instituições da Igreja, seus rituais e os poderes de seus sacerdotes. O protestantismo buscou um remédio mais individual para a dúvida do eu. O indivíduo protestante tinha de moldar sua história de modo a somar um todo significativo, digno. O indivíduo torna-se então eticamente responsável por seu próprio tempo vivido particular.

Ao contrário das boas obras católicas, porém, o trabalho árduo não pode conquistar para o protestante nenhum grande favor junto ao Criador, apenas oferece sinais de intenções dignas a um Juiz divino que já decidiu cada caso de antemão. Esse é o terror que se esconde por trás do conceito abstrato de "ascetismo leigo". Na opinião de Weber, a maior disposição de poupar do que de gastar passou do protestante para o capitalista como um ato de autodisciplina e autonegação. Essa mesma passagem deu origem a um novo tipo de caráter. É o homem motivado, decidido a provar seu valor moral pelo trabalho. O homem motivado não se encaixa nas velhas imagens católicas dos vícios da riqueza, como a gula ou a luxúria; é intensamente competitivo, mas não pode gozar do que ganha. A história de sua vida torna-se uma interminável busca de reconhecimento dos outros e de auto-estima. Contudo, mesmo que os outros o elogiassem por seu ascetismo leigo, ele temeria aceitar esse elogio, pois isso significaria aceitar-se a si mesmo. Tudo no presente é tratado como instrumento para um destino final nada no momento importa por si mesmo. Foi isso que se tornou na sociedade secular da teologia do indivíduo.

A ética do trabalho do homem motivado não parece a Max Weber motivo de felicidade humana, nem na verdade de força psicológica. O homem motivado é demasiado oprimido pela importância que tem de atribuir ao trabalho. Disciplina, diz Michel Foucault, é um ato de autopunição, e sem dúvida é o que parece na exposição da ética do trabalho. Assim, o uso disciplinado do tempo não é a virtude simples, direta, que a princípio parece. É Luta implacável, inexorável. No mundo antigo, é enigma para os crentes renascentistas. No homo faber, motivo de autopunição na teologia do indivíduo.

Certamente o enfraquecimento da ética do trabalho seria um ganho para a civilização. Mas como aliviar o peso sobre o eu trabalhador? As formas modernas de trabalho em equipe são em muitos aspectos o oposto da ética do trabalho como concebia Max Weber. Em oposição à ética do indivíduo, o trabalho em equipe enfatiza mais a responsividade mútua que a confirmação pessoal. O tempo das equipes é mais flexível e voltado para tarefas específicas de curto prazo do que para a soma de décadas caracterizadas pela contenção e a espera. O trabalho em equipe, porém, leva ao domínio da superficialidade degradante que assedia o moderno local de trabalho. Na verdade, o trabalho em equipe deixa o reino da tragédia para encenar as relações humanas como uma farsa. Os grupos tendem a manter-se juntos ficando na superfície das coisas. E a superficialidade partilhada mantém as pessoas juntas evitando questões difíceis, divisivas, pessoais. Assim, o trabalho em equipe poderia parecer mais um exemplo, portanto, dos laços do conformismo de grupo.

Na velha cultura de trabalho, o conformista empresarial era uma personagem demasiado previsível e confiável. Nessa cultura flexível da imagem e sua informação, previsibilidade e confiabilidade são traços de caráter menos destacados. O líder aparece agora como um facilitador. Uma solução entre o grupo é "mediar" entre cliente e equipe. É um administrador do processo. Seu trabalho, facilitação e mediação, podem ser separadas do resultado. A palavra "líder" assim, se aplica a ele no sentido tradicional de autoridade, mas sem autoridade real. Tampouco são a facilitação e mediação atos de vontade implacáveis, decididos, como os que formavam o caráter dos pequenos agricultores livres em combate com a natureza. O ascetismo leigo de Weber, como foi visto, realizava a teologia do indivíduo de Lutero num mundo secular. O indivíduo colhido nos labores do ascetismo leigo luta para adquirir poder sobre si mesmo. Mais, o homem motivado busca justificar-se. Nesse sentido, a ética do trabalho assume uma forma diferente, aparentemente em termos mais colaborativos que individuais. As pessoas ainda fazem jogos de poder nas equipes, contudo, a ênfase em aptidões leves de comunicação, facilitação e mediação muda radicalmente um aspecto do poder: desaparece a autoridade. A pessoa com poder não justifica a ordem; o poderoso apenas "facilita", capacita os outros. Esse poder sem autoridade desorienta os empregados. Eles ainda podem sentir-se levados a justificar- se, mas agora não há ninguém mais acima que responda.

O trabalho em equipe adquiriu uma espécie de sanção oficial, na moderna prática administrativa americana. A Comissão de Obtenção de Qualificações Necessárias da Secretaria (SCANS em inglês) produziu seu relatório em 1991. Devia ser um relatório sobre as qualificações que as pessoas precisam numa economia flexível. A imagem que a SCANS faz da equipe é de um grupo de pessoas reunidas mais para executar uma tarefa específica imediata que para permanecer juntas, como numa aldeia. Os autores argumentam que o trabalhador tem de trazer a tarefas de curto prazo a capacidade instantânea de trabalhar bem com um elenco variável de caracteres. Isso significa que as aptidões que as pessoas levam para o trabalho são portáteis: saber ouvir e ajudar aos outros, ao passar de equipe em equipe, à medida que muda o pessoal das equipes. Concluiu-se que as realidades da equipe no local de trabalho flexível são caracterizadas pela enganadora metáfora esportiva para estimular as formas flexíveis de trabalho. Os autores do estudo da SCANS e outros semelhantes são realistas: sabem que a economia hoje enfatiza o desempenho mediato e o curto prazo, os resultados do saldo final. Contudo, os administradores também sabem que uma competição individual acirrada pode destroçar o desempenho de um grupo. Assim, na equipe de trabalho moderna surge uma ficção: os patrões não competem de fato entre si. E mais importante ainda, surge à ficção de que trabalhadores e chefes não são antagonistas; o chefe, em vez disso, administra o processo de grupo. Ele ou ela é "líder", a palavra mais esperta no moderno léxico administrativo; o líder está do nosso lado, em vez de ser nosso governante. O jogo de poder é jogado pela equipe contra equipes de outras empresas.

O conceito de equipe justificava o trabalho flexível como uma forma de desenvolver as aptidões pessoais, a empresa declarava que "todos os membros associados serão treinados em várias funções, e nelas trabalharão. Isso aumenta seu valor para a equipe e para a empresa, além de seus próprios sentimentos de auto-estima (cultura de cooperação por meio de símbolos igualitários) - manipular as aparências e comportamentos. (Cf. Graham, Laurie). O importante neste aspecto é o fato de que os administradores se apegam à panacéia de fazerem o trabalho imediato todos juntos, todos na mesma equipe, para resistir à contestação interna. O chefe evita ser responsável por suas ações: tudo recai nos ombros do jogador. Assim, o poder está presente nas cenas superficiais de trabalho de equipe, mas a autoridade está ausente. As modernas técnicas de administração buscam fugir do aspecto "autoritário" de tais declarações, mas fazendo isso os administradores conseguem escapar também de se responsáveis por seus atos. O repúdio da autoridade e da responsabilidade nas próprias superficialidades do trabalho em equipe flexível estrutura a vida de trabalho diária, e também os momentos de crise, como uma greve ou uma redução. Esse jogo de poder sem autoridade gera um novo tipo de caráter. Em lugar do homem motivado, surge o homem irônico. Uma visão irônica de si mesmo é a conseqüência lógica de viver no tempo flexível, sem padrões de autoridade e responsabilidade. O etos do trabalho de equipe contrapõe o universo moral do camponês determinado e heróico de Virgílio. E as relações de poder contidas na equipe de trabalho, o poder exercido sem reivindicações de autoridade, está muito distante da ética de responsabilidade própria que caracterizava a velha ética do trabalho, com seu ascetismo leigo (rigidez moral) de Weber.

A cultura da nova ordem perturba profundamente a auto-organização. Ela pode separar a experiência flexível da ética pessoal estática. Pode separar o trabalho fácil, superficial, da compreensão e do empenho. Pode tornar o constante correr riscos um exercício de depressão. A mudança irreversível e múltipla, a atividade fragmentada pode ser confortável para os senhores do novo regime, mas podem desorientar os servos do regime. E o novo etos cooperativo do trabalho em equipe instala como senhores os "facilitadores" e "administradores de processo", que fogem ao verdadeiro compromisso com seus servos. Assim, clássica ética do trabalho de adiar a satisfação e provar-se pelo trabalho árduo dificilmente pode exigir nossa afeição. Mas tampouco o pode o trabalho em equipe, com suas ficções e fingimentos de comunidade.


CONSIDERAÇÕES FINAIS |


Percebemos com a leitura do sexto capítulo, A Ética do Trabalho, do livro A Corrosão do Caráter, de Richard Sennett, que ele aponta duas éticas diferentes. A velha e a nova ética. Na primeira atuava o indivíduo detentor do horário de trabalho, consciente da existência e vinda do “caos”, atribulado ao trabalho como necessidade e virtude. Na nova ética “reina” o indivíduo submisso ao tempo estabelecido de trabalho (rotinização), numa convivência diária e constante do “caos”, e sua necessidade que alimenta a virtude, sendo essa atribulada ao trabalho. A virtude não mais está no reconhecimento duradouro, e sim no instantâneo. O caos não mais virá através na “Anarquia da Natureza”, na conceituação de Virgílio, em Geórgicas, onde essa é transplantada numa visão interior, psíquica, sendo o caos agora eminente, construído e administrado pelo homem.

Nessa concepção do mundo, sendo o homem seu próprio criador, aparece o conceito de homo faber, “cabendo ao homem ser o que preferir e ser o que quiser (...) é ignóbil não dar à luz nada de nós mesmo”, (Florentino Pico della Mirandola em Orações sobre a dignidade do Homem). O homo faber ia contra o dogma tradicional cristão no que pregava o aprendizado e transplantação desse aprendizado. Em contrapartida a essa concepção vinha o pensamento cristão, no que afirmava o modelar do indivíduo, mas se contrariava na idéia de passar essa experiência através desse indivíduo: “Tira as mãos de ti mesmo; tenta construir-te a ti e construirás uma ruína” (Santo Agostinho). “É uma virtude disciplinar o uso de nosso tempo, mas um pecado projetar nossa própria experiência” (Tyndale, bispo renascentista).

A partir desse pensamento, Max Weber traz a alusão do asceticismo leigo, sendo esse contexto de autonegação e autodisciplina. Essa prática visa à autonegação da prática capitalista do século XVIII, com maior ênfase em poupar do que gastar tempo na rotinização das atividades diárias. Isso decorre do medo legítimo do prazer. Essa prática passa do protestante para o capitalista, dando origem a um novo caráter social. O homem agora se motiva a mostrar seu valor social através do trabalho. Ele (o protestante e novo indivíduo capitalista) se mostra mais competitivo e tendo “consciência” que não pode gozar do que ganha. O que faz o homem justificar-se é a motivação. “É o homem motivado, decidido a provar seu valor moral pelo trabalho” (Sennet).

Richard Sennett vem dissertar sobre o trabalho de equipe, numa perspectiva contemporânea, tendo como base de estudo a sociedade norte-americana. O autor vem enfatizar que o trabalho de equipe molda as atitudes mútuas que favorecem o desenvolvimento da autonomia e auto-afirmação, sendo o tempo voltado para tarefas específicas de curto prazo. Nessa linha, Sennett fala sobre a “superficialidade degradante”, sendo essa a posição do falso sentido, onde não há contextualização difícil, divisivas e pessoais, gerando um conformismo de grupo. Isso se relaciona ao indivíduo que não contesta, não expressando sua opinião crítica. Nesse patamar, o líder é o indivíduo que se especializa em administrar os processos, sendo que, não necessariamente, seu trabalho está ligado ao resultado. O líder é o facilitador que domina a arte da flexibilização, sabendo bem escutar e processar o que lhe foi incumbido. Seu sentido de liderança se estrutura no sentido tradicional de autoridade, mas sem autoridade de trazer pra si a problemática do processo.

A ética do trabalho assume uma forma mais colaborativa do que individual. O aspecto do poder se estrutura em aptidões leve de comunicação, leve mediação e facilitação, sendo pautados assim os jogos de poder. A pessoa com poder é facilitadora do processo e capacitadora das ferramentas. O jogo de poder é jogado pela equipe contra equipes de outras empresas. A pesquisa da SCANS (Comissão de Obtenção de Qualificações Necessárias da Secretaria, 1991), citada por Richard Sennett, enfatiza que ouvir e reproduzir o que foi dito, são o grande mote para continuar inserido no sistema de trabalho de equipes, uma vez que ouvindo se discute tudo “mais por regras improvisadas e livres do que por regras escritas num manual de procedimento”.

As aptidões dos funcionários são portáteis, tais como saber ouvir e ajudar a passar de equipe em equipe, no que muda o pessoal das equipes. Com isso, a economia enfatiza o desempenho imediato e o curto prazo, os resultados finais. Já no patronato não há, geralmente, competição entre si, fazendo surgir à ilusão que trabalhadores e chefes não são antagonistas, diferentes. Sennett conclui que o trabalho de equipe é a prática de grupo de superficialidade degradante, concentrado na adaptabilidade às circunstâncias, sendo essa a ética do trabalho que serve a uma economia de política flexível. Essa ética de trabalho depende, em partes, de instituições suficientemente estáveis para a pessoa praticar o adiamento. Torna-se absurdo trabalhar arduamente por muito tempo e para um patrão que só pensa em vender o negócio e subir. A mudança, como agente responsável, desabilita a responsabilidade do administrador, do chefe. Se todos são vítimas, não há autoridade para culpar. A pressão dos colegas com ele mesmo é que faz o trabalho do administrador. Logo, sua função primordial é fazer com que eles se pressionem.

Na conformidade da metáfora do esporte (quando o chefe ou líder se transforma em “treinador”), quando utilizada na construção do relacionamento no trabalho de equipe, o autor pondera que o distanciamento do indivíduo como pessoa, no processo de trabalho, é efetivo para boa construção do processo trabalhista:

“Também se exige distanciamento do bom jogador da equipe, ele deve ter a capacidade de distanciar-se de relacionamentos estabelecidos e julgar como podem ser mudados; deve imaginar a tarefa imediata, em vez de mergulhar em longas histórias de intrigas, traições passadas e ciumeiras” (Sennett).

Em umas das citações de Sennett nesse capitulo de seu livro, o pesquisador aborda o sociólogo Gideon Kunda e sua concepção de “teatro profundo” para descrever o trabalho de equipe. Esse pensamento constrói um entendimento que tal teatro obriga os indivíduos a manipular suas aparências e comportamentos com os outros. Seria uma forma de vestir várias máscaras, tendo cada uma delas uma funcionalidade de comunicação, bom desempenho, se pautando no falso. Em outra citação, Richard Sennett aponta estudo de Robin Leidner, que estudou os roteiros escritos, entregues aos empregados de serviço com propósito de estabelecer a “simpatia” do empregado que cuidar das substâncias dos interesses dos clientes. Sennett vem chamar isso de “janelas de aptidão social”, na qual o sorriso cativante se faz fórmula para uma boa conduta trabalhista e interação comunicacional. Seria o “hipertexto” necessário. A encenação é uma questão de sobrevivência (juntamente com o conflito mútuo) na qual fortalece a posição dos que estão acima.

Na conclusão de seu pensamento sobre o caráter do indivíduo, Sennett vem afirmar que esse caráter se dá na medida em que existe um jogo de poder sem autoridade. O homem motivado de Max Weber dar lugar ao homem irônico da contemporaneidade, na qual o indivíduo veste suas máscaras sem se preocupar em assumir uma determinada posição, em que possa ser responsabilizado totalmente. Essa ironia se concentra num estado que não é levado a sério, pois os termos que ela refere estão dispostos a constantes mudanças, reconhecendo suas fragilidades, seu eu.

Para Richard Sennett, nem a velha nem a nova ética do trabalho oferece uma resposta satisfatória à pergunta de Pico della Mirandola: “Como devo moldar minha vida?”. Organizar as histórias das nossas vidas agora, num processo capitalista que nos marginaliza em termos profissionais, no que diz respeito à experiência, é o problema no qual enfrentamos atualmente.

30/10/2010

Fotos e vídeos dos dois últimos shows de Alpha Blondy em Recife | 2010

fotos e vídeos por Luiz Bernardo Barreto 

O primeiro show de Alpha Blondy em Pernambuco foi em 23/01/2010, no evento Sunsplash Reggae Music, Chevrolet Hall, Recife - PE (ver fotos). O segundo show, no Clube Português,  foi no evento Roots Reggae Festival, em 11/09/10 (ver vídeos).

vídeo 01:

vídeo 02:

vídeo 03:

vídeo 04:

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13/10/2010

Sessão Dazantigas Nostálgica | Documentário: Do Compasso à Sambada

Do Compasso à Sambada é um documentário, de cunho etnográfico, produzido em caráter de conclusão do curso de Pós-Graduação (especialização) em Jornalismo Cultural, pela Unicap (Universidade Católica de Pernambuco), 2008.


Na primeira parte do vídeo, dissertam sobre o Coco figuras do cenário olindense: Ana Lucia do Amaro Branco, Beth de Oxum do Guadalupe, e Galo Preto. Na segunda parte do vídeo, dissertam sobre o Coco Mestre Ferrugem de Olinda, o grupo Coco Raízes de Arcoverde, e Valdir Manoel da Silva, do Coco Mazuca de Agrestina


O objetivo geral desse trabalho, exibido no 1º Festival do Filme Etnográfico do Recife, é mostrar as principais diferenças e vertentes do Coco Pernambucano, dissertando sobre sua musicalidade, origem e história.

A pesquisa começou em Março de 2007, se estendendo até Setembro de 2008, abordando não só os músicos e grupos contidos no documentário, mas também outros que se mostram na monografia de conclusão do curso.

parte 01:



parte 02:



Os artigos do documentário estão em:
http://jornaldeumtostao.blogspot.com/2008_10_19_archive.html
http://jornaldeumtostao.blogspot.com/2008_10_05_archive.html

A monografia da pesquisa se encontra em:
http://www.overmundo.com.br/banco/do-compasso-a-sambada

08/10/2010

Movimento Pró-Bosque UFRPE | PELA FORÇA DA VIDA!

texto e vídeo por Luiz Bernardo Barreto

Vou ser direto, objetivo e sem muitas delongas: Especula-se em desmatar o Bosque, área de extremo convívio social dos alunos da UFRPE, e demais pessoas. Querem construir mais um prédio na UFRPE. Até ai, tudo bem! Porém querem fazer esse prédio no lugar do Bosque, pretendendo-se desmatar o ambiente, que é rico em flora e fauna. Isso faz parte de uma “política” já adotada pela Universidade de construir prédios em lugares arborizados, de forte convívio social, sem prévia comunicação.

A entrevista com a professora Hulda Stadtler, do Dept. de Educação da UFRPE, foi feita pelos alunos da Universidade, e se debateu desde o tombamento do Bosque, ao uso da cannabis sativa pelos estudantes.

Mobilize-se! Vá conhecer o Bosque e faça uso de seu espaço. Não deixe mais uma agressão ser feita com os alunos da UFRPE, com a natureza e sociedade!

O vídeo está publicado na íntegra, sem cortes, e foi captado em 06/10/10 no Bosque.



30/09/2010

A conceituação de organização em Talcott Parsons

Por Luiz Bernardo Barreto

Talcott Parsons vem conceituar que “organização” se refere ao tipo de burocracia. Em seu texto, Sugestões para um Tratado Sociológico da Teoria de Organização, no Tratado Sociológico da Teoria de Organização, o autor aponta “aspectos comuns a todos estes tipos de organização que ultrapassem as separações freqüentes e comuns entre as disciplinas das ciências sociais”. O estudo da organização constitui apenas parte do estudo da estrutura social. O mesmo poderá se aplicar à conceituação de comunidades locais, a subsociedades regionais e uma sociedade como um todo, concebida como uma nação. Para Parsons, os grupos de trabalho não convencionais, grupos de amigos, não são organizações nesse sentido.

A prioridade de atenção para uma meta específica é considerada característica de definição de uma organização, distinguindo-a de outros tipos de sistemas sociais (especialização profissional, por exemplo). A consecução (andamento) de uma meta é definida como uma relação entre um sistema, e as partes em que ele atua ou funciona. Esta relação poderá ser concebida como a maximização de alguma categoria ou espécie de produção (output) do sistema. “Uma organização é um sistema que, atingidas suas metas, “produz” um elemento identificável que pode de alguma forma ser utilizado por outro sistema; isto é, a produção da organização representa para outro sistema uma entrada ou acréscimo (input)”.

Presume-se que no caso de todas as organizações, exista algo análogo a um “mercado” para a produção, o que constitui a consecução de sua meta, e que exista uma espécie de troca dessa meta por entidades que são meios importantes para que a organização possa desempenhar sua função num sistema maior. A troca da produção pelo acréscimo na divisa é um dos sistemas que estão mais envolvidos na definição das características básicas da organização. “Quando a “produção” especializada e seu consumo ou utilização final se efetuam dentro da mesma unidade estrutural, não há necessidade de diferenciação de organizações especializadas (...) sociedades primitivas geralmente não possuem organizações claramente diferenciadas nesse sentido”. Isso seria um sistema comunal de produção, função e atribuições numa suposta organização. Essa última afirmativa do autor, facilmente o enquadra como neoevolucionista (mas, o mesmo, no começo de suas obras, mostrava inclinação para o funcionalismo).

O processo de tomada de decisões, e os processos que tais decisões podem contar com a mobilização no interesse de uma meta, são mecanismos de mobilização e constituem o que comumente imaginamos como o desenvolvimento do poder em um sentido político. Entendemos então que a tomada de decisões (em um sistema hierárquico) é apenas concebida diante do cargo ocupado, sendo tal decisão equivalente ao cargo e função. O que do ponto de vista da organização é uma meta específica, é parte diferenciada do ponto de vista do sistema maior. Esta relação constitui o ciclo básico entre uma organização e o sistema maior, proporcionando a classificação dos tipos de organização.

O autor vem apresentar duas abordagens: a primeira refere-se a um sistema característico por prioridades essenciais a qualquer sistema social, e a segunda refere-se a um subsistema, funcionalmente diferenciado de um sistema social maior. Sua afirmativa é que “as características da organização serão definidas pela espécie de situação em que precisa operar, e que consistirá nas relações que prevalecem entre ela e os outros subsistemas especializados, componentes do sistema maior do qual é parte”. Ou seja, é a situação que molda o direcionamento da execução na produção de uma determinada organização. Isso é a conceituação de sociedade.

Uma organização pode ser descrita e analisada sob dois pontos de vista, sendo o “cultural e institucional”, que emprega os valores do sistema e sua institucionalização em diferentes contextos funcionais, como ponto de partida. E o ponto de vista do “grupo” ou “papel”, que considera suborganizações, e os papéis de indivíduos que participam do funcionamento da organização como ponto de partida. O ponto principal de referência para a análise da estrutura de qualquer sistema social é seu padrão de valores:

a) O sistema de valor da organização implica na aceitação básica dos valores mais generalizados do sistema superior, a não ser que se trate de uma organização divergente, não integrada no sistema superior.

b) Baseia-se no nível indispensável da generalidade, que constitui o aspecto mais essencial do sistema de valores de uma organização, que é a legitimação avaliável de seu lugar ou “papel” no sistema a que se subordina.

O foco do sistema de valores terá de ser o da legitimação de suas metas, e, em segundo lugar, a legitimação da primazia desta meta sobre outros possíveis interesses e valores da organização e de seus membros. Então, a meta é objetivo no qual só tem valia se fizer sentido para a organização e seus participantes e produtores. O sistema de valores de uma empresa comercial constitui uma versão de “racionalidade econômica”. A dedicação da organização em relação à produção é legitimada. Está é a “finalidade de organização” em Chester Bernard. A obtenção de lucros não constitui por si mesmo uma função em prol da sociedade, como um sistema.

Os valores organizacionais legitimam a meta do sistema. Haverá regras normativas que governarão os processos adaptativos da organização, sendo regras ou princípios a governar a integração desta, particularmente na definição das obrigações de lealdade dos participantes para com ela. A própria organização deverá dispor de processos institucionalizados, mediante recursos, que objetivam atingir a meta. Portanto, a maneira de obter recursos para se atingir a essa meta, visa um campo principal de institucionalização.

Os recursos a ser utilizados por uma organização são os fatores de produção: terra, mão-de-obra, capital e “organização”. Quanto mais completamente desenvolvido o complexo do mercado, menores serão os bens de uma organização retirados do mercado. Um conjunto de obrigações de recursos em base de valor é o aspecto central desta face do complexo da terra. Os dois fatores mais fluidos são a mão-de-obra e capital, no sentido econômico. “A maioria dos serviços pessoais é realizada em papéis ocupacionais ou em funções. Isto significa que são contratados em algum setor do mercado de trabalho” (Talcott Parsons). Isso claramente é o que, contemporaneamente, conhecemos como o setor terceirizado.

A negociação coletiva se diferencia da individual. “Em sentido econômico, o mercado de trabalho não pode assemelhar-se proximamente a um “mercado perfeito” (...) tais organizações se tornam progressivamente dependentes em contratos explícitos de emprego para os seus serviços humanos”. (Parsons) Uma das formas de se organizar o serviço é quando nem quem executa (o produtor), nem quem adquiriu (o cliente) pertencem a uma organização. Ou seja, há uma contratação para a produção do produto comercializado, desde mesmo sua etapa inicial até a final, estando esse pronto para o consumo (seria uma forma de imparcialidade diante do resultado final do produto). Daí, a organização toma posse do produto com a marca, e, conseqüentemente, sua simbologia. Essa é a base principal da escala como padrão de remuneração. Um segundo modo de organização, comporta numa prestação de serviços ao padrão normal de produção de comodidades (assessorias).

“A transição é particularmente clara no caso do hospital. Na pratica particular, o paciente inequivocadamente é o ‘empregador’. Mas na pratica hospitalar, a organização emprega um grupo de especialistas, profissionais médicos, para atender os pacientes. Esta admissão do cliente, acolhendo-o dentro da organização, tem implicações importantes para a natureza da organização”. (Parsons) O autor vem afirmar com isso, que as necessidades de uma organização estão sendo atendidas suficientemente pelo financiamento, pela provisão de verba financeira à disposição da organização.

Cada tipo de organização põe a disposição, de forma bastante diferente, seus mecanismos a respeito do recurso financeiro. Em longo prazo, a empresa comercial estará capacitada para autofinanciar-se adequadamente. O financiamento das organizações é considerado interesse público, e deve ser encarado como exercício de poder político. “Todas as submetas dentro da sociedade devem ser integradas na estrutura de metas da sociedade como um todo, e é com esta estrutura de metas da sociedade que as informações políticas se situam acima de todas as demais”. (Parsons)

É através de contratação de serviços profissionais, sendo necessário e desejável, que se há modificação na estrutura mais fundamental das organizações. Seria o que o autor denomina de input, que é a entrada adicional do fator da organização neste sentido técnico. A estabilidade do sistema de valores é a base de referência essencial. Os termos da meta da organização se definem e se legitimam as obrigações dela decorrentes. Surgem a partir dessa base de referência, as normas que definem a contratação de serviços humanos no mercado de trabalho e o financiamento da organização.

Se a organização conseguir controlar os recursos necessários, ela precisará dispor de um conjunto de mecanismos, no qual faça que tais recursos possam influenciar no processo, de forma efetiva, na implementação de metas em uma situação instável.

Há dois aspectos nesse sentido:

1. “Disposição” do “produto” das atividades da organização, na qual se ajusta a liquidação com os recebedores do produto. É o problema do marketing no contexto econômico. É necessário generalizar esse conceito. Por exemplo:



Produtos de uma organização militar podem ser considerados como aplicados imediatamente em relação ao Executivo e ao Legislativo do Governo e ao povo, mas não são vendidas em nenhum sentido direto.



2. Os mecanismos internos da mobilização de recurso para a implementação da meta. Referências internas e externas podem ser tratadas conjuntamente, governadas pelo “código operante” da organização. “No caso da mobilização de recursos, estas bases relacionam-se com o problema das “reivindicações” da organização para obter os recursos de que precisa e a liquidação dos termos em que estaria disponível para ela”. (Parsons)



Ex.: O conjunto principal de decisões será o conjunto de decisões tendentes a atingir a meta. A priori não se faz nem se estima mais do que se pode. O processo de poder ou não atingir determinada meta, vem com a capacidade de maior implementação de recursos da organização.



Outro conjunto de decisões relaciona-se à implementação de recursos disponíveis:



1. A distribuição de responsabilidades entre pessoas, suborganizações e indivíduos.

2. A distribuição de recursos fluidos, potencial humano e facilidades monetárias e físicas.

“Um terceiro conjunto de decisões relaciona-se com a manutenção da integração da organização, facilitando-se a cooperação e lidando com os problemas motivacionais quanto à manutenção da cooperação”. Os primeiros dois conjuntos de decisões estão no setor que Bernard chama o problema da “eficácia”; o terceiro é o locus do problema da “eficácia”, em seu sentido lato. (Parsons)

Tarefa importante para a teoria da organização é a classificação sistemática dos níveis de generalização de decisões. O aspecto crítico das decisões quanto a diretrizes é que compromete a organização como um todo, para desempenhar as ações resultantes, constituindo o problema da responsabilidade. Diretrizes (direção) + Decisões (desempenho) = responsabilidade (autorização).

Em vista da ação da organização como um todo, a autorização torna-se particularmente importante no nível de decisão de diretrizes. Organizações diferentes possuem diferentes caminhos concretos para organizar o processo da tomada de decisões. A especialização nas funções administrativas ou gerenciais afasta dos incumbidos destas funções a execução dos processos técnicos principais, conduzindo à meta da organização da tomada das principais decisões de funcionamento no nível do “trabalho”.

O técnico pode ser considerado responsável pelos resultados de suas operações, não podendo receber “ditado” para realizar determinada coisa ou tarefa a respeito dos processos técnicos pelos quais atinge tais resultados. Ele tem uma diretriz, cunhada no desempenho, estruturando sua autonomia diante de sua responsabilidade. Os aspectos principais do processo de distribuição de decisões são os “departamentos” (suborganizações) e os de natureza financeira (facilidades burocráticas e instalações físicas).

Dessa forma, as operações técnicas poderão ser tratadas e consideradas sendo controlada pela distribuição da responsabilidade de decidir. O orçamento é o segundo aspecto principal do processo distributivo. Esse representa a distribuição de recursos financeiros fluidos, os quais podem ser empregados para determinar “fins”, ou seja, aquisição de facilidades físicas e emprego de pessoal.

“A distribuição de responsabilidade é a definição das funções de subsistemas, organizados de forma humana e preenchidos por pessoas. A distribuição de verbas orçamentárias dá a estas suborganizações os meios pelos quais podem estas desempenhar suas funções (...) ‘decisões de coordenação’ é aquilo quer Bernard chamou de problemas de “eficácia”. São as decisões operacionais relacionadas com a integração da organização como um sistema”. (Parsons)

Coordenação, numa perspectiva da operação da organização, é “cooperação” numa perspectiva do pessoal. A administração da organização deve tomar, ou está pronta a tomar medidas para agir contra o impulso, mantendo reduzida a mudança no quadro do pessoal (turnover), para fazer que o desempenho das subunidades e dos indivíduos mais se adapte às exigências da organização. Há, nesse ponto de vista, um conjunto de três formas fundamentais, que são a coerção, o estímulo e a forma terapêutica de avaliação dos obstáculos motivacionais.

O turnover visa uma familiaridade com a função determinada. Desta forma, a abstração para melhor desempenhar a função estabelecida pela organização, se estrutura como um procedimento no processo produtivo.



Sobre a obra:

A estrutura das organizações se dá por metas, objetivos e funções. A implementação do sistema produtivo no mercado em evidência, é baseado num sistema de responsabilidades, na qual determina a ação e a função do operário e das organizações. Autorização, direção e hierarquia funcional nas organizações são elementos que moldam toda estrutura organizacional. Talcott Parsons argumenta sobre a coordenação de um sistema de organização, e a cooperação que pretende com suas metas e objetivos para com o mercado.